Extraordinário dá vida nova a filmes do gênero e nos leva de volta ao ginásio


*Artigo escrito pelo cineasta Daniel Bydlowski e publicado no jornal Diário de Pernambuco

Extraordinário, baseado no best-seller homônimo do escritor R.J. Palacio de 2012, traz o grande acerto do livro ao cinema. Filmes que tratam de assuntos tristes como doenças e outros problemas de saúde muitas vezes colocam estes aspectos em planos tão centrais na obra que acabam tirando a atenção dos próprios personagens e de suas vidas. Extraordinário, dirigido por Stephen Chbosky,muda este quadro e traz consigo um estilo diferente.

O filme conta a história de Auggie (Jacob Tremblay), um menino que nasceu com uma deformidade facial devido a um raro gene que ambos os seus pais possuem. Acreditando que é hora de seu filho aprender a enfrentar a realidade e as outras pessoas, seu pai (Owen Wilson) convence sua mãe (Julia Roberts) de que Auggie precisa ingressar no ginásio. O maior conflito do enredo fica então claro: Auggie precisa lidar com o bullying de muitos jovens da escola para tentar fazer amigos. Ao mesmo tempo, seus pais e sua irmã (Izabela Vidovic) tentam colocar suas vidas pessoais em ordem.

Vendo o trailer, pode-se acreditar que se trata mais uma vez de um clichê que mostra como a vida de tal pessoa é triste e como é difícil para a família. Porém, a obra está longe disso e caminha muito inteligentemente sem cair nas famosas armadilhas já batidas. O aspecto mais importante é o modo com que Auggie é retratado: como uma criança comum, que tem desejos e medos regulares. Além disso, sua aparência física é compensada por seu humor e inteligência. Assim, todos os espectadores imediatamente gostam do personagem e, ao invés de ter pena, se identificam com ele. Afinal, como seu melhor amigo afirma, esquecemos de sua deformidade ao longo do tempo, e focamos principalmente em suas qualidades positivas.

A produção ainda usa elementos da cultura Nerd para dar mais vida ao enredo. Por exemplo, Star Wars é citado várias vezes como algo querido por Auggie, o que também dá grande humor à obra (com direito à participação dos próprios personagens da saga de ficção científicana escola). Além disso, estas referências são usadas de modo eficaz. Qual é a pior coisa para uma criança do que ter seus próprios ídolos voltados contra ela? Quando um dos meninos que caçoam de Auggie usa o vilão deformado de Star Wars (Imperador Palpatine) para se referir ao protagonista, todos sentimos sua dor.

O filme evita colocar Auggie sempre como centro da atenção e foca também em sua irmã Via, que se sente muito solitária já que toda a atenção de seus pais está com seu irmão. E o modo que Extraordinário faz isso é com a criação de capítulos que mostram o ponto de vida de personagens diferentes, como o próprio Auggie, sua irmã e até mesmo seus amigos.

Tanto a presença da cultura popular e Nerd, quanto a possibilidade de vermos os diferentes pontos de vista de diversos personagens, dão ao filme uma leveza muito rara para este tipo de obra. O resultado é que, ao invés de levar à depressão, Extraordinário simplesmente faz com que todos lembremos e voltemos para a época do ginásio, com lembranças contentes e tristes, amigos inesquecíveis e um futuro pela frente.

Daniel Bydlowski é cineasta brasileiro e artista de realidade virtual com Masters of Fine Arts pela University of Southern California e doutorando na University of California, em Santa Barbara, nos Estados Unidos. É membro do Directors Guild of America. Trabalhou ao lado de grandes nomes da indústria cinematográfica como Mark Jonathan Harris e Marsha Kinder em projetos com temas sociais importantes. Seu filme NanoEden, primeiro longa em realidade virtual em 3D, estreia em breve.

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